segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Meus ensaios incautos: "O inferno são os outros"

O ano de 2017 acabou! E a observação tímida que faço do meu cotidiano não tem me deixado tirar da cabeça uma passagem.

Na peça teatral Entre Quatro Paredes (Huis Clos, no original em francês), Jean-Paul Sartre apresenta a seguinte frase: "o inferno são os outros". Para compreender a sentença em sua essência, seria indispensável uma imersão na corrente de pensamento existencialista - o que não seria nada mal; porém, de antemão alertei que o ensaio era incauto e, bem, ouso molhar o pé com as reflexões que meu conhecimento superficial me dá sobre essa mensagem sartriana.

Assumir falhas, lapsos, irresponsabilidades é uma tarefa extremamente difícil. Pelo menos é isso que indica meus círculos sociais, amorosos e, especialmente, minha pessoa - meu relato se baseia nessa amostragem. Não que não nunca reconheçamos nossos erros, porém, é sempre mais fácil encontrar inúmeros motivos para tirarmos de nós o fardo e jogarmos em nossos amigos, na professora "chata", no colega "egoísta", no tempo "ruim". Um exemplo ilustrativo: nós recebemos uma nota baixa em uma prova de matemática e, muito antes de prescrutar nosso passado de pouco estudo, já tentamos procurar o inferno no professor que não nos explicou o conteúdo adequadamente, no colega que ficou fungando durante a prova inteira, na caneta que falhou e nos fez perder dois minutos de tempo e assim vamos... Isto é, enxergamos nos outros os 34 cantos do Inferno de Dante, enquanto em nós precisamos de uma cartografia avançada para encontrar um pequeno purgatório.

Nesse contexto, considero algumas hipóteses. 

A primeira é perceber que, de fato, há nos outros o "inferno"; suas ações podem prejudicar-nos, magoar-nos, afetar-nos. Então, conceber que as falhas dos outros nos atingem  em diferentes escalas é ser realista. Não é vitimismo. É ser sensato. Às vezes o inferno dos outros podem nos levar a um relacionamento tóxico, a uma tristeza constante, a uma baixa autoestima. Noutro ponto, está algo que dificilmente reconhecermos espontaneamente, nós também podemos ser o inferno dos outros, nós podemos ocasionar um relacionamento tóxico, podemos motivar uma tristeza constante e cometer inúmeros desacertos. O ponto é o seguinte: o inferno são os outros, para mim e para os outros. Logo, todos nós temos um inferno.

Como lidar com esse cenário? Apelo que, no princípio, lidemos assumindo as responsabilidades pelos nossos atos. Não buscando em cada frustração que nos ocorra um inferno alheio. Que assumamos o nosso inferno, afinal! E trabalhemos para que esse seja cada vez menor. Consideremos nossa humanidade. 

Nessa linha, sejamos tolerante com a falibilidade dos outros. Mas que atuemos quando o inferno do outro nos afeta. A melhor maneira possível de agir é a partir do diálogo, buscando auxiliar o outro a lidar e amenizar seus erros. Chavão simples, porém difícil de ser absorvido e posto em prática. Objetivamente: considerar a humanidade que há nas pessoas. O inferno dos outros podem ter inúmeros motivos... o nosso também tem.

Desconsidere-se, claro, situações em que os erros de outrem cruza os limites. Há casos graves, em que o afastamento e/ou medidas mais sérias precisam ser tomadas.

Alinhei esses breves e despojadas reflexões, pois um tipo de pensamento passeou inúmeras vezes pela minha modesta timeline do Twitter, o qual diz que 2018 será o ano da justiça, o ano que o carma (no ponto de vista budista, aparentemente) se revelará e afins. Quando essa ideia ressoava pelos meus amigos que a compartilhavam, parecia que havia um tom ameaçador por detrás, como se "os outros" iriam pagar pelo "inferno que há neles". Não é uma ideia que compartilho, aliás, é uma ideia que combato.

Primeiro, porque não acredito na "lei do retorno", pelo menos não na vida terrena. Mas essa é uma questão espiritual pessoal. 

Segundo, e especialmente, porque acho uma extrema falta de humildade ver apenas nos outros o "inferno". Logicamente há! Mas não penso que cabe a outra pessoa cobrar a justiça divina ou indiretamente usá-la como ameaça. 

Todos somos falhos e como ensinaria um dos milenares provérbios chineses: "Antes de iniciares a tarefa de mudar o mundo, dá três voltas na tua própria casa". 

Que em 2018 podemos aceitar cada vez mais a falibilidade do outro. Que quando apontarmos os erros, seja de uma maneira contribuitiva. Que quando não pudermos fazer nada, não pioremos a situação. Mas que não achemos inaceitáveis e cubramos com ressentimentos os erros de outrem.

Aceitemos para sermos aceitados. Portanto, acima de tudo, que em 2018 possamos assumir as nossas imperfeições. Admiti-las e, a partir disso, buscar o crescimento pessoal. Essa é minha leve oração. Direcionada a mim, mas aberta a todos.


Aldous Huxley (autor do romance Admirável Mundo Novo) nos provocou - em meio aos seus escritos no livro Contraponto - com a seguinte questão: "Sabes lá se por acaso a Terra não é o inferno de algum outro planeta?"

Então, antes de vermos o inferno dos outros, reconheçamos o inferno que pode haver em nós.

Pois... Sabes lá se por acaso não somos/fomos/seremos o inferno de alguma outra pessoa?

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